Moc Toe Café: o Brasil sempre soube fazer coisa boa
Tem uma coisa curiosa sobre o Brasil que sempre me chamou a atenção. Durante muito tempo nós nos acostumamos a olhar para determinados produtos importados como referência de qualidade, enquanto algumas das melhores coisas que produzíamos aqui seguiam justamente no caminho contrário, eram exportadas. Isso aconteceu com o café e aconteceu também com os calçados. Talvez por isso eu tenha achado tão interessante fazer essa comparação quando olhei para a nossa Moc Toe 1961 Café. Não apenas porque a cor do couro lembra imediatamente um bom café brasileiro, mas porque existe uma história por trás dessas duas coisas que, de certa maneira, acaba se encontrando.
Quem acompanha a Black Boots sabe que eu gosto muito da história das botas americanas. Existem marcas centenárias nos Estados Unidos que ajudaram a construir toda uma cultura em torno das botas de trabalho e que acabaram transformando modelos criados originalmente para trabalhar em verdadeiros clássicos. A própria bota Moc Toe faz parte dessa história e é impossível falar sobre esse desenho sem olhar para os Estados Unidos. Mas existe um outro lado dessa história que nós brasileiros às vezes esquecemos: o Brasil também construiu uma das grandes indústrias calçadistas do mundo e, durante décadas, produzimos calçados de excelente qualidade para alguns dos mercados mais exigentes.
Quando o Made in Brazil estava nas vitrines do mundo
Quem viajou pelos Estados Unidos ou pela Europa nos anos 80 e 90 provavelmente teve a oportunidade de entrar em uma loja, pegar um bom sapato na mão, olhar a etiqueta e encontrar ali uma inscrição que talvez hoje surpreenda muita gente: Made in Brazil. Não era uma raridade. Segundo dados da Abicalçados, em 1993 o Brasil exportou mais de 200 milhões de pares de calçados, um recorde histórico da indústria brasileira que até hoje não foi superado. Com o passar dos anos, o calçado brasileiro chegou a mais de 150 países e construiu uma reputação importante no mercado internacional.
E isso não aconteceu por acaso. O Brasil tinha, e continua tendo, couro, matéria-prima, indústria, máquinas, modelistas, cortadores, pespontadores, montadores e principalmente uma enorme quantidade de conhecimento acumulado ao longo de gerações. Algumas regiões brasileiras se transformaram em verdadeiros polos de produção de calçados e desenvolveram uma cultura industrial muito particular. Franca, no interior de São Paulo, é um dos maiores exemplos disso. Existe ali um conhecimento que não nasceu ontem e que não se aprende simplesmente comprando uma máquina nova. É o tipo de conhecimento que vai passando de uma geração para outra e que você percebe quando pega um bom calçado na mão, olha as costuras, observa o couro, a montagem, o acabamento e entende que existe muita gente e muita história por trás daquele produto.
É claro que o mundo mudou bastante desde os anos 90. A produção asiática ganhou uma escala gigantesca, a China se transformou na maior fabricante mundial de calçados e muitas marcas americanas e europeias passaram a produzir parte ou praticamente toda a sua linha na Ásia. Isso faz parte da transformação da indústria mundial e não significa necessariamente que um produto seja bom ou ruim simplesmente por ter sido fabricado neste ou naquele país. Mas uma coisa é importante lembrar: o crescimento da produção asiática não apagou o conhecimento que existe na indústria brasileira. Nós continuamos sabendo trabalhar couro e continuamos sabendo fazer bons calçados.
E é justamente aí que entra o café nessa conversa.
O café que o mundo conhecia antes de nós mesmos valorizarmos
O Brasil produz café há séculos e construiu boa parte de sua própria história econômica em torno dele. Durante muito tempo fomos conhecidos no mundo inteiro pelo nosso café e continuamos sendo uma potência mundial na produção e exportação. Só que existe uma ironia interessante nessa história: enquanto produzíamos cafés excelentes e exportávamos boa parte dessa produção, o consumidor brasileiro se acostumou durante décadas com um café muito torrado, escuro, forte e amargo. Para muita gente, inclusive, café bom era justamente aquele que chegava à xícara quase preto e tinha um sabor tão forte que precisava de uma boa quantidade de açúcar.
Com o tempo começamos a descobrir que não precisava ser assim. O próprio mercado brasileiro passou por um processo de transformação e de melhoria de qualidade. A ABIC começou ainda no final dos anos 80 um trabalho de controle da pureza do café vendido no país e, posteriormente, surgiram programas voltados também para a qualidade da bebida. Aos poucos o brasileiro começou a conhecer melhor aquilo que o próprio Brasil já produzia havia muito tempo. Começamos a ouvir falar de café gourmet, café especial, origem do grão, região produtora, tipo de torra, aroma, acidez, corpo e métodos diferentes de preparo.
Hoje você entra em uma cafeteria e encontra gente querendo saber de onde veio aquele café, como foi torrado e qual é a melhor maneira de prepará-lo. Encontramos no supermercado cafés de diferentes origens, qualidades e preços, e muita gente passou a aceitar pagar mais por um café melhor porque começou a perceber a diferença dentro da xícara. O mais interessante é que o Brasil não aprendeu recentemente a produzir um grande café. Nós já sabíamos fazer isso. O que mudou foi a maneira como começamos a olhar para aquilo que produzimos e, principalmente, a maneira como aprendemos a valorizar e saborear o nosso próprio café.
Quando penso na indústria brasileira de calçados, vejo alguma semelhança nisso tudo. Existe entre nós uma tendência antiga de olhar para determinados produtos estrangeiros e automaticamente atribuir a eles uma qualidade superior. Quando alguém começa a pesquisar uma bota masculina de couro de melhor qualidade, por exemplo, rapidamente aparecem referências americanas e europeias. Existem marcas fantásticas lá fora, algumas com mais de cem anos de história, e eu mesmo gosto delas, acompanho o que fazem e tenho enorme respeito por essa tradição. Mas existe uma diferença entre admirar um bom produto estrangeiro e acreditar que ele é melhor simplesmente porque foi feito fora do Brasil.
Uma Moc Toe brasileira, feita por quem conhece calçado
Foi exatamente esse pensamento que me veio quando olhei para a Moc Toe 1961 Café da Black Boots. É claro que ela carrega a influência das tradicionais botas Moc Toe americanas, porque esse desenho faz parte dessa cultura e não faria sentido negar sua origem. A costura característica que contorna a parte dianteira da bota, formando aquele desenho sobre os dedos, nasceu ligada aos calçados de trabalho e atravessou décadas até se transformar em um dos estilos mais reconhecidos entre quem gosta de botas. Mas a nossa intenção nunca foi fazer uma bota brasileira tentando esconder que ela é brasileira ou simplesmente copiar uma bota americana. Queremos fazer uma grande Moc Toe aqui, usando o conhecimento de uma indústria que fabrica calçados há gerações e que durante décadas colocou milhões de pares nas vitrines do mundo.
Na Moc Toe 1961 Café, usamos couro legítimo Latego em uma tonalidade marrom profunda que combina muito com esse desenho clássico. É um couro encorpado, bonito e que tem uma característica que eu particularmente gosto muito: ele muda com o uso. Uma boa bota de couro não deveria permanecer eternamente com a mesma aparência do dia em que saiu da caixa. O couro dobra, ganha marcas, muda ligeiramente de tonalidade em alguns pontos, vai se moldando ao pé e começa a contar a história de quem está usando aquela bota. Depois de algum tempo, aquele par já não é exatamente igual a nenhum outro e, para mim, boa parte da graça de ter uma bota de couro legítimo está justamente nisso.
Eu gosto de pensar que existe uma relação parecida com um bom café. Quando você começa a prestar atenção, deixa de enxergar apenas uma bebida escura dentro de uma xícara. Você começa a perceber o aroma, o sabor, a torra e as diferenças entre um café e outro. Com uma boa bota acontece algo parecido. Depois que você começa a conhecer couro, construção e acabamento, deixa de olhar apenas para o formato. Você quer saber qual couro foi utilizado, como aquela bota foi feita, como ela vai envelhecer, como vai se comportar depois de meses de uso e como estará daqui a alguns anos.
E é aí que a Moc Toe Café deixa de ser simplesmente uma bota marrom com um nome bonito. O Café tem a ver com a cor do couro, evidentemente, mas para nós acabou ganhando um significado maior. Ele lembra um produto profundamente brasileiro, reconhecido no mundo inteiro e que nós mesmos tivemos que aprender a olhar de outra maneira para entender o seu verdadeiro valor.
Talvez seja hora de saborear também as nossas botas
Existe uma enorme diferença entre simplesmente tomar um café e saborear um bom café. Da mesma maneira, existe diferença entre simplesmente comprar um calçado e escolher uma bota sabendo de onde ela veio, de que material foi feita e quem está por trás dela. Essa é uma relação diferente com o produto e foi justamente pensando nisso que nasceu essa história da Moc Toe Café. Talvez nós, brasileiros, tenhamos demorado um pouco para aprender a saborear e valorizar o nosso próprio café, mesmo produzindo alguns dos melhores cafés do mundo há muito tempo. Com as botas acontece algo parecido. Temos couro, indústria, conhecimento e gente que sabe fazer calçado há gerações. Não precisamos esperar que uma bota atravesse um oceano, ganhe uma etiqueta estrangeira e volte custando três vezes mais para reconhecer que estamos diante de um grande produto.
A Moc Toe 1961 Café é uma bota masculina de couro feita no Brasil e nós fazemos questão de dizer isso. Podemos admirar as grandes marcas internacionais, conhecer sua história e aprender com uma tradição que ajudou a criar alguns dos modelos de botas mais importantes do mundo, mas também podemos olhar para aquilo que sabemos fazer aqui. Afinal, se durante décadas o mundo comprou e reconheceu o calçado brasileiro, talvez quem precise redescobrir essa história sejamos nós mesmos.
No final das contas, talvez o café e a bota tenham mesmo mais coisas em comum do que parece. Os dois carregam história, matéria-prima, conhecimento e o trabalho de muita gente. Os dois também melhoram quando começamos a prestar atenção nos detalhes e entendemos que qualidade não deveria ser medida apenas pelo preço ou pelo país que aparece na etiqueta. E talvez seja essa a melhor maneira de apresentar a Moc Toe 1961 Café da Black Boots: uma bota de couro brasileira, feita por uma indústria que conhece calçados e que não precisa tentar parecer estrangeira para ser um grande produto.
Da próxima vez que você preparar um bom café brasileiro, dê uma olhada para aquilo que está dentro da xícara e pense em toda a história que existe por trás dele. Nós demoramos algum tempo para descobrir que parte daquilo que procurávamos lá fora já estava sendo produzido aqui. Com as botas, podemos começar um pouco mais cedo.
Uma curiosidade: café e botas vêm da mesma terra
E existe ainda uma coincidência nessa história que talvez seja a melhor de todas. A Moc Toe 1961 Café da Black Boots é produzida na região de Franca, justamente uma das regiões mais tradicionais do Brasil tanto na fabricação de calçados quanto na produção de café. Franca está no coração da Alta Mogiana, reconhecida oficialmente com Indicação de Procedência para seus cafés e considerada hoje pela Conab a principal região cafeicultora do Estado de São Paulo. É uma região de altitude elevada, clima favorável e tradição centenária, conhecida especialmente pela produção de cafés arábica de alta qualidade. Ou seja, quando falamos de café e de botas neste texto, não estamos juntando duas coisas apenas porque a comparação ficou bonita. Elas realmente fazem parte da história e da economia do mesmo lugar.
Talvez por isso o nome Moc Toe Café tenha acabado ficando ainda melhor do que imaginávamos. De um lado está a tradição calçadista de Franca, com gerações de pessoas que aprenderam a trabalhar couro e a fabricar calçados que durante décadas foram vendidos no Brasil e exportados para o mundo. Do outro está a tradição cafeeira da Alta Mogiana, que também produz um produto brasileiro reconhecido pela sua qualidade dentro e fora do país. Nossa Moc Toe Café acaba, de certa maneira, encontrando essas duas histórias em um único produto: uma bota de couro feita em Franca, no meio de uma das melhores regiões produtoras de café do Brasil.
No final das contas, talvez o café e a bota tenham mesmo mais coisas em comum do que parecia no começo dessa conversa. E, nesse caso, eles têm até o mesmo endereço: Franca - SP
GUILHERME HORTA
Fundador
BLACK BOOTS BRASIL
DESDE 1996