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11/09/2026

Bota de couro ressecada e rachando: por que acontece e como evitar

Esses dias recebi as fotos de uma bota de um cliente que me chamaram bastante a atenção. O couro estava muito ressecado, com uma quantidade grande de pequenas fissuras e algumas rachaduras aparentemente já bastante profundas. O curioso é que boa parte desse problema estava concentrada na região traseira do cano, acima do calcanhar, uma área que naturalmente sofre algum movimento durante o uso, mas muito menos flexão do que a região da frente da bota, onde o pé dobra a cada passo. Quando vejo uma coisa dessas, depois de tantos anos trabalhando com botas, a primeira pergunta que me vem à cabeça é: o que aconteceu com esse couro?

Quem acompanha a Black Boots sabe que eu gosto de couro que envelhece. Uma bota de couro legítimo muda de cor, ganha vincos, riscos, manchas e marcas. Dependendo do couro, depois de alguns anos ela pode ficar até mais bonita do que quando saiu da caixa. É aquela história da pátina, das marcas que vão contando por onde aquela bota andou e o que viveu com você. Eu gosto disso e acho que faz parte da graça de ter uma boa bota de couro. Só que uma coisa é envelhecimento e outra coisa é deterioração. Quando aparecem fissuras generalizadas e rachaduras profundas como as que apareceram nessa bota, principalmente em uma região que nem sequer é a de maior flexão, já estamos falando de outra coisa.

Como faço em muitos casos que chegam para nós, pedi ao cliente que procurasse o Walter, sapateiro que indicamos e que já resolveu vários problemas para clientes da Black Boots. O Walter é um excelente profissional e daqueles sapateiros que conhecem calçado de verdade. Não é simplesmente alguém que passa uma tinta, dá uma lustrada e devolve a bota bonita. Ele olha construção, couro, costura, solado, entende o que é possível recuperar e também tem a honestidade de falar quando determinado conserto deixou de fazer sentido. Isso para mim é muito importante. Não adianta fazer uma maquiagem numa bota, cobrar do cliente e o problema reaparecer pouco tempo depois.

Nesse caso, depois de analisar as imagens, a avaliação do Walter foi bastante parecida com a minha. Para ele, aquele couro parecia ter sofrido um ressecamento muito forte e o dano já estava profundo. Recuperar aquilo corretamente poderia significar substituir peças de couro, o que obrigaria a desmontar boa parte da bota e provavelmente tornaria o serviço economicamente inviável. O Walter também levantou a possibilidade de ter sido utilizado algum produto que acabou agredindo ou ressecando o couro. E aqui é importante deixar uma coisa clara: nem eu nem ele temos como olhar uma fotografia e afirmar qual produto foi utilizado. Seria irresponsável fazer isso. Mas podemos olhar para o resultado, para a localização das rachaduras e para a condição geral do couro e conversar sobre as várias coisas capazes de levar uma bota a esse estado.

O couro é resistente, mas não é indestrutível

Para entender isso, vale conhecer um pouco melhor o material que temos nas mãos. O couro não é simplesmente aquela superfície marrom ou preta que enxergamos na bota. Ele possui uma estrutura tridimensional formada por uma rede complexa de fibras de colágeno que, durante o curtimento e as etapas posteriores de fabricação, recebe tratamentos para adquirir estabilidade, resistência, maciez e flexibilidade. Existe inclusive uma etapa conhecida como fatliquoring, na qual óleos e outros agentes são introduzidos na estrutura do couro para lubrificar suas fibras e proporcionar características como maciez e capacidade de flexão. Ou seja, a flexibilidade que sentimos numa boa peça de couro não acontece por acaso. Ela faz parte da própria engenharia desse material.

Isso ajuda a entender por que um couro excessivamente ressecado começa a dar problema. Imagine milhares de fibras que precisam se movimentar umas em relação às outras toda vez que você anda. Enquanto essa estrutura mantém condições adequadas de flexibilidade, o couro acompanha o movimento. Quando fica excessivamente rígido e seco, essa capacidade diminui. Podem surgir pequenas fissuras que, com o tempo e o esforço mecânico, evoluem para rachaduras maiores. Por isso, características como resistência à flexão, teor de óleo, absorção de água, umidade e permeabilidade ao vapor d'água são levadas em consideração tecnicamente na fabricação e avaliação de couros destinados a calçados.

E isso também explica uma expressão que uso há muitos anos quando converso com clientes: o couro precisa respirar. Evidentemente não estou dizendo que o couro está vivo e respirando como nós. Estou falando de uma característica física do material. O couro apresenta capacidade de absorver e liberar umidade e possui permeabilidade ao vapor d'água. A própria literatura técnica sobre couro utiliza a palavra breathability, respirabilidade, para falar dessa propriedade. Dependendo do tipo de couro, do curtimento e principalmente do acabamento aplicado à superfície, essa capacidade pode variar bastante.

Por isso eu não gosto da ideia de tratar uma bota de couro simplesmente como uma superfície que precisamos cobrir e deixar brilhando. O próprio couro já sai do curtume com uma série de tratamentos e acabamentos. Pode receber óleos, ceras, pigmentos, resinas e diferentes combinações dependendo das características que se pretende obter. Existem couros mais naturais, couros mais protegidos, couros oleados, couros encerados, nobuck, camurça e uma infinidade de variações. Portanto, não existe uma regra simplista dizendo que todo produto químico é ruim, que toda cera é boa ou que qualquer coisa que impermeabilize vai destruir o couro. A questão é outra: precisamos saber o que estamos passando, para qual couro e com qual finalidade.

Brilho não é sinônimo de couro bem cuidado

Talvez esse seja um dos erros mais comuns que vejo. A pessoa olha para a bota, percebe que ela está meio opaca e imediatamente pensa que precisa passar uma graxa. Passa o produto, esfrega, lustra e pronto. A bota está brilhando novamente e aparentemente muito bem cuidada.

Só que brilho e conservação não são necessariamente a mesma coisa.

Existem produtos cuja principal função é produzir brilho. Existem condicionadores e amaciantes. Existem produtos para limpeza. Existem ceras protetoras. Existem impermeabilizantes. E existem formulações que combinam algumas dessas funções. Uma cera dura pode ser excelente para produzir brilho e criar determinada proteção superficial quando utilizada corretamente. A técnica tradicional de brilho espelhado em sapatos sociais, por exemplo, é construída justamente pela aplicação de sucessivas camadas de cera. Não existe nada de errado nisso quando esse é o resultado desejado e o produto é adequado ao couro.

O interessante é que os próprios fabricantes tradicionais de produtos profissionais fazem uma distinção bastante clara entre polimento e condicionamento. A Saphir, por exemplo, recomenda periodicamente remover o acúmulo de ceras antigas para permitir que os óleos dos produtos condicionadores sejam absorvidos pelo couro e chama atenção especial para a necessidade de manter condicionadas as regiões submetidas à flexão, justamente para ajudar a prevenir rachaduras ao longo do tempo.

É aí que entra uma coisa que sempre aconselho aos clientes da Black Boots. Para mim, o importante é manter o couro macio, flexível e com a aparência que aquele couro deve ter. E aqui existe uma diferença grande entre uma bota como as nossas e, por exemplo, um sapato social de couro liso feito para receber bastante brilho.

Nas botas da Black Boots trabalhamos muito com couros cuja beleza está justamente naquele aspecto mais natural, normalmente entre o fosco e o semifosco. É uma aparência que deixa aparecer a textura, as nuances de tonalidade e, com o tempo, as próprias marcas de uso. Eu não quero transformar esse couro num espelho. Isso não significa que a aparência não seja importante. Muito pelo contrário. Significa que queremos preservar a aparência própria daquele couro, e não substituí-la por uma camada artificial de brilho.

Na Black Boots, por exemplo, usamos uma cera à base de cera de abelha e cera de carnaúba, uma formulação que já conhecemos e utilizamos há bastante tempo. Ela ajuda no cuidado do couro sem transformar a bota naquele sapato extremamente brilhante. É justamente esse equilíbrio que eu gosto: manter o couro com boa aparência, agradável ao toque, macio e flexível, respeitando as características originais do material.

Mas afinal, o que pode fazer um couro rachar daquele jeito?

Não existe uma única resposta e provavelmente esse é o ponto mais importante deste texto. Um couro pode chegar a um estado de ressecamento e rachaduras por uma combinação de fatores. Pode passar muito tempo sem qualquer manutenção, pode enfrentar ciclos repetidos de molhar e secar, pode sofrer exposição excessiva ao calor, pode ser armazenado durante muito tempo em condições inadequadas e pode acumular sujeira e resíduos. O próprio envelhecimento do material e de seu acabamento também entra nessa conta.

A água merece uma explicação à parte porque às vezes cria uma confusão. Molhar uma bota de couro não significa necessariamente estragá-la. Bota foi feita para ser usada e, dependendo do modelo e do couro, evidentemente vai pegar chuva. O problema pode estar na repetição constante desses ciclos e principalmente na maneira de secar. Colocar uma bota molhada debaixo de sol forte, diante de um aquecedor ou usar um secador para acelerar o processo não é uma boa ideia. A evaporação muito rápida da água e o calor excessivo podem contribuir para deixar o couro mais rígido e prejudicar suas características.

Também existe a possibilidade de utilização de produtos inadequados ou utilizados de maneira errada. E aqui prefiro tomar bastante cuidado para não transformar o assunto numa caça às bruxas. Não vou dizer que “derivado de petróleo estraga couro”, que “silicone destrói couro” ou que “impermeabilizante racha bota”, porque tecnicamente essas generalizações não são corretas. Existem excelentes produtos profissionais que utilizam solventes, silicones, ceras, óleos e outras substâncias em suas formulações. Existem inclusive impermeabilizantes desenvolvidos para aumentar a resistência à água preservando a permeabilidade ao vapor do material.

O problema aparece quando alguém utiliza um produto inadequado para aquele couro, exagera na quantidade, aplica repetidamente sem necessidade ou começa a misturar produtos com finalidades diferentes. Uma camada hoje, outra amanhã, uma graxa diferente na semana seguinte, depois um impermeabilizante, depois mais alguma coisa que alguém recomendou. E quase nunca se pensa no que já está acumulado sobre a superfície. Mais produto não significa necessariamente mais conservação.

Há também aquelas receitas caseiras que aparecem de tempos em tempos. Álcool, detergentes fortes, desengraxantes, óleo de cozinha, limpa móveis, produtos automotivos, solventes e uma série de outras “dicas infalíveis”. Algumas dessas substâncias podem remover óleos ou interferir no acabamento, outras podem provocar manchas ou escurecimento, outras deixam resíduos, e o comportamento ainda pode variar enormemente conforme o tipo de couro. Por isso eu prefiro não fazer experiências. Uma coisa é utilizar um produto cuja formulação e comportamento naquele couro nós conhecemos. Outra é pegar qualquer coisa que temos dentro de casa e descobrir o resultado depois que ela já está na bota.

Quando a rachadura aparece, muitas vezes já é tarde

Essa talvez seja a parte mais difícil de explicar para um cliente. Manutenção é principalmente prevenção. Quando começamos a perceber que um couro está ficando seco ou rígido, ainda podemos limpá-lo corretamente, aplicar um produto apropriado e ajudá-lo a recuperar parte da condição e da flexibilidade. Mas existe um momento em que a fissura deixa de ser apenas uma alteração superficial do acabamento e passa a representar dano físico ao próprio material.

Quando as fibras já foram rompidas profundamente, não existe cera milagrosa capaz de fazer o tempo voltar atrás. Um bom profissional consegue preencher, pigmentar e melhorar muito a aparência de determinados danos. Existem trabalhos de restauração excelentes. Mas restaurar a aparência e reconstruir a estrutura original do couro são coisas diferentes.

Foi exatamente por isso que gostei da franqueza do Walter nesse caso. Ele poderia simplesmente ter recebido a bota, feito algum tipo de maquiagem, cobrado pelo serviço e devolvido. Preferiu explicar que o dano parecia profundo e que, para fazer um reparo realmente correto, provavelmente seria necessário substituir peças, desmontando uma parte importante da bota. Tecnicamente pode até ser possível, mas chega uma hora em que financeiramente deixa de fazer sentido.

O Walter já resolveu vários problemas para nós e para clientes da Black Boots e acabou se tornando um profissional que gosto de indicar justamente por isso. Um bom sapateiro não é somente aquele que sabe consertar uma bota. É também aquele que conhece suficientemente o calçado para saber quando vale a pena mexer e quando é melhor ser franco com o cliente.

Como eu cuido das minhas botas

Depois de tantos anos trabalhando com isso, continuo achando que couro gosta de cuidado simples e bom senso. Se a bota está suja, começo retirando poeira e sujeira com uma escova ou pano macio. Se molhou, deixo secar naturalmente, em local ventilado e sem tentar acelerar o processo com calor. E observo o couro. Ele mesmo vai mostrando quando está ficando mais seco, quando perdeu um pouco daquela maciez ou quando precisa de algum cuidado.

Periodicamente, gosto de utilizar um produto que ajude a conservar essa flexibilidade. Pode ser chamado de condicionador, amaciante, creme ou cera dependendo da formulação. Mais importante do que o nome escrito na embalagem é entender o que aquele produto efetivamente faz e se é indicado para aquele couro. Depois, dependendo do uso da bota, pode haver necessidade de maior proteção contra água ou de algum outro tratamento específico. Não há problema nisso. São necessidades diferentes e precisam ser tratadas como tal.

E nunca podemos esquecer que nem todo couro é igual. Um couro liso, um couro oleado, um Latego, um nobuck e uma camurça têm características e acabamentos diferentes. Não dá para imaginar que necessariamente o mesmo produto vai produzir o mesmo resultado em todos eles. Até um bom condicionador pode escurecer determinados couros, principalmente aqueles com acabamento mais natural. Por isso, diante de um produto novo, vale sempre fazer primeiro um teste numa pequena região pouco visível da bota. É muito mais fácil descobrir ali que não gostamos do resultado do que descobrir depois de passar no pé inteiro.

No final das contas, aquela fotografia que recebi acabou rendendo uma conversa muito maior. Continuamos sem saber exatamente o que aconteceu com aquela bota e não quero afirmar que determinado produto foi o responsável sem conhecer toda a história. Pode inclusive ter sido uma combinação de fatores. Mas sabemos que aquele aspecto não é simplesmente o envelhecimento normal de uma bota que ganhou marcas com o uso. Existe ali um couro profundamente ressecado e rachado, e isso serve como um bom exemplo para pensarmos na maneira como estamos cuidando das nossas botas.

Eu não quero conservar minhas botas para que elas pareçam novas para sempre. Quero que elas envelheçam bem. Quero que apareçam os vincos, as mudanças de tonalidade, os riscos e as marcas que vêm com o tempo. Isso faz parte do couro e, para mim, é justamente uma das coisas mais bonitas desse material. O cuidado não serve para impedir que a bota envelheça. Serve para que, enquanto envelhece, o couro continue com sua aparência natural, macio, flexível e resistente.

Então, antes de pegar aquela lata de graxa ou qualquer outro produto porque a bota parece estar precisando de alguma coisa, vale olhar para ela com um pouco mais de atenção e perguntar: do que esse couro realmente está precisando?

Pode ser limpeza. Pode ser condicionamento. Pode ser proteção contra água. Pode ser uma boa escovada. Pode ser hora de procurar um bom sapateiro.

E às vezes o melhor cuidado é simplesmente não passar mais nada.

Valeu!!!

abs,

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