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01/09/2026

Bota Garmont: uma obra de arte italiana no meu acervo

Uma velha Garmont e o que ela conta sobre a evolução das botas de caminhada

Eu sou apaixonado por botas há muitos anos e quem acompanha a Black Boots há mais tempo provavelmente já percebeu isso. Gosto das nossas botas, evidentemente, mas gosto de bota de uma maneira geral. Gosto de conhecer marcas, construções, couros, solados, ferragens e principalmente de entender por que uma determinada bota foi feita daquele jeito. Tenho várias aqui em casa que fui juntando ao longo dos anos e algumas acabaram fazendo parte do meu acervo.

Essa Garmont da foto é uma delas. 

Ela chegou até mim através do Lenine, que começou como cliente da Black Boots e hoje é um amigo. O Lenine também gosta muito de botas, entende do assunto e um dia me mostrou essa Garmont que estava com ele. Pelo que me lembro, ele comprou a bota usada na Europa, provavelmente durante o período em que morou em Portugal. A gente acabou fazendo um rolo, eu fiquei com a Garmont e ela veio parar aqui em casa.

Quando ele me mostrou a bota eu pirei. Achei muito legal. Eu já conhecia a Garmont de nome, sabia que era uma marca italiana ligada ao montanhismo e ao trekking, mas nunca tinha tido uma na mão. E uma coisa é você conhecer uma marca, ver fotografia, saber que existe. Outra coisa é pegar uma bota dessas, principalmente uma bota antiga, e começar a olhar como ela foi feita.

Eu tenho essa mania. Pego a bota, viro, olho o solado, abro a língua, olho por dentro, vejo o couro, as ferragens, as costuras, como o cabedal foi cortado e como foi feita a montagem. Depois de tantos anos trabalhando com isso é inevitável. Você começa a olhar uma bota e tenta entender o que o fabricante estava pensando quando resolveu fazer aquilo.

Essa Garmont é particularmente interessante porque ela pertence a uma época em que as botas de montanha eram bastante diferentes das que encontramos hoje. E foi justamente olhando para ela que comecei a pensar no tanto que esse tipo de calçado mudou nas últimas décadas.

A Garmont nasceu em 1964 em Montebelluna, no norte da Itália. E Montebelluna não é uma cidade qualquer quando o assunto é calçado. É uma região que desenvolveu uma tradição enorme na fabricação de calçados técnicos, principalmente botas para montanha, esqui e posteriormente uma série de outros esportes. O distrito ficou conhecido como Sportsystem e reuniu fabricantes, fornecedores e mão de obra especializada nesse tipo de produto. A própria Garmont explica que seu nome nasceu dessa origem: “GAR” vem de Garbuio, sobrenome da família fundadora, e “MONT” é uma homenagem a Montebelluna.

Aqui no Brasil nós conhecemos muito mais algumas marcas internacionais de outdoor do que outras. Timberland, Salomon e Merrell, por exemplo, tiveram uma exposição muito maior por aqui. Mas quando você começa a olhar o mercado europeu de montanhismo e hiking percebe a quantidade de fabricantes especializados que existem, principalmente na Itália e em outros países com uma cultura de montanha muito mais presente do que a nossa.

Eu me lembro de uma experiência que tive muito antes de essa Garmont chegar até mim. Por volta de 1989 ou 1990 eu estava na Inglaterra e comprei uma bota de montanha que seguia mais ou menos essa mesma escola. Era ainda mais antiga na concepção e tinha inclusive um sistema para encaixe em equipamento de esqui. Era couro, muita estrutura, sola robusta e aquela construção em que você percebe que a principal preocupação era proteger o pé em condições realmente severas.

Quando pego essa Garmont hoje, ela me lembra também algumas botas da Paraíso que conheci anos depois. Principalmente pela quantidade de material e pela maneira de construir.

Eu ainda não consegui identificar com segurança o modelo e o ano exato dessa Garmont. Minha impressão, observando materiais, desenho e ferragens, é que seja uma bota de algumas décadas atrás, provavelmente daquele período em que as botas tradicionais de montanha começaram a conviver com tecnologias novas. Mas, enquanto não encontrar um catálogo ou uma documentação que permita identificar exatamente o modelo, prefiro não inventar uma data.

O que consigo dizer com segurança é aquilo que está na minha frente.

É uma bota muito robusta. O couro externo é grosso e o couro utilizado internamente também tem uma gramatura que chama atenção. O cabedal utiliza poucas peças e poucas costuras. Grande parte dele é praticamente uma peça única de couro, com a emenda principal ficando na região traseira. Isso é muito interessante porque, além da resistência, você diminui a quantidade de pontos por onde água e umidade poderiam penetrar.

A língua é do tipo morcego e sobe bastante, justamente para dificultar a entrada de água, neve, terra e pequenas pedras. Existe ainda uma estrutura interna de língua e fechamento que deixa o pé bastante protegido.

As ferragens também merecem atenção. São peças fortes, pesadas, feitas realmente para trabalhar. Alguns dos passadores possuem inclusive pequenas esferas que ajudam o cadarço a deslizar quando você aperta a bota. Pode parecer um detalhe pequeno, mas tente apertar corretamente uma bota rígida dessas usando um cadarço comprido e você começa a entender por que alguém se preocupou com isso.

Na parte inferior você encontra muita estrutura, palmilha de montagem em couro e uma construção costurada extremamente robusta. E por baixo disso tudo está uma sola Vibram original, com garras profundas e aquele famoso octógono amarelo que acabou se tornando uma das identificações mais conhecidas do mundo dos calçados de montanha.

A própria história da Vibram ajuda a entender essa bota. A empresa desenvolveu sua famosa sola Carrarmato ainda nos anos 1930, e em 1969 o octógono passou a usar a cor amarelo-ouro que conhecemos hoje. A Vibram foi evoluindo junto com o montanhismo e, décadas depois, seria também uma das empresas envolvidas diretamente na busca por solados mais leves e confortáveis.

Quando você pega essa Garmont na mão percebe imediatamente o peso. Quando coloca no pé percebe outra coisa: ela é dura. Muito dura.

Eu nunca usei essa bota de verdade. Coloquei no pé para experimentar, mas ela está comigo há uns três ou quatro anos como peça do meu acervo. Fica exposta aqui em casa. Tenho algumas botas que trato quase como uma obra de arte, não no sentido de ficar fazendo cerimônia com elas, mas porque gosto de olhar. Essa é uma delas.

E, pelo pouco que experimentei, não tenho dúvida de que uma bota dessas precisava de um bom período de amaciamento. Não é uma bota que eu escolheria hoje para colocar no pé e ficar andando normalmente pela cidade. É rígida, pesada e difícil de flexionar.

Só que precisamos tomar cuidado para não analisar uma bota antiga usando apenas os critérios que temos hoje.

Ela foi feita para outra situação.

Se eu estiver aqui em Campanha com vinte graus de temperatura e alguém me chamar para caminhar seis horas, não tenho a menor dúvida de que vou escolher uma bota moderna e mais leve. Agora, se você mudar a conversa e falar que vamos subir uma montanha, pegar neve, pedras, frio intenso e temperatura abaixo de zero, aquela rigidez toda começa a fazer bastante sentido.

O pé fica extremamente protegido. Existe couro grosso por fora, couro por dentro, uma estrutura firme segurando o pé, um solado pesado e uma amarração que praticamente trava tudo no lugar.

E aí chegamos numa pergunta interessante: se essa construção funcionava tão bem, por que as botas de trekking mudaram tanto?

A resposta tem muito a ver com aquilo que aconteceu na indústria de calçados esportivos principalmente a partir do final dos anos 1970 e durante os anos 1980.

As botas italianas tradicionais de montanha eram construídas basicamente em couro. Couro no cabedal, couro na palmilha, couro em elementos estruturais. Eram fortes e ofereciam muita proteção contra pedras e neve, mas tinham pouco amortecimento e exigiam bastante tempo para se adaptar ao pé. A própria Gore, quando conta a história da evolução dos calçados de hiking, descreve exatamente essa situação e mostra como esse tipo de construção ainda era comum durante os anos 1970.

Então começaram a aparecer materiais e tecnologias que permitiam dividir as funções da bota.

Em 1979 surgiu o primeiro calçado comercial da marca Gore-Tex, um tênis de corrida da Brooks. Logo depois essa tecnologia começou a entrar nas botas de caminhada. A Gore registra que, em 1980, fabricantes já começaram a integrar suas membranas às botas de hiking. No ano seguinte a Meindl apresentou uma bota leve, impermeável e respirável utilizando a tecnologia.

Ao mesmo tempo, materiais que estavam sendo desenvolvidos e utilizados nos tênis esportivos começaram a migrar para as botas. Entraram EVA, poliuretano, nylon e uma série de materiais sintéticos que permitiam reduzir peso, aumentar amortecimento e diminuir muito o período de amaciamento.

Essa mudança é importante porque alterou a própria lógica de construir uma bota.

Na Garmont antiga, o couro resolve grande parte dos problemas. Ele protege contra abrasão, ajuda a dar estrutura, protege do frio e, devidamente tratado, oferece boa resistência à água. Para isso funcionar, você precisa de bastante couro e de uma construção pesada.

Numa bota moderna podemos distribuir essas funções.

O couro pode continuar protegendo as regiões que precisam de resistência. Uma membrana pode cuidar da impermeabilidade. O forro pode melhorar o contato com o pé e administrar a umidade. Uma entressola de EVA pode absorver impacto. A borracha pode ficar concentrada onde realmente precisamos de tração.

Isso permitiu tirar muito peso das botas sem simplesmente abrir mão da proteção.

A Vibram também participou dessa transformação. Em 1984 lançou a Evaflex, uma sola superleve em EVA. Em 1989 veio a Gumlite, uma espuma de borracha resistente que, segundo a própria empresa, conseguia ser cerca de 30% mais leve que um composto tradicional de borracha.

E nesse ponto entra outra marca que faz parte da história da nossa Walker: a Danner.

A Danner é americana e fabrica botas desde 1932. No final dos anos 1970 ela estava justamente no meio dessa transformação. A Danner Light, lançada naquele período, combinava couro com painéis de nylon, solado Vibram e uma membrana Gore-Tex. A própria Danner registra 1979 como o início dessa história e considera o modelo um marco no uso da tecnologia Gore-Tex em botas.

O interessante é que a Danner não simplesmente abandonou tudo o que existia antes. Ela misturou as duas coisas.

Tanto que a Danner Light continua sendo fabricada nos Estados Unidos. A versão atual mantém couro, nylon, membrana Gore-Tex, solado Vibram e uma construção stitchdown que permite que a bota seja reparada e reconstruída.

E foi uma Danner dessa escola que acabou servindo de inspiração muitos anos depois quando resolvi desenvolver a Walker para a Black Boots.

Eu já tinha vendido Salomon, Merrell, Timberland e outras marcas de botas para caminhada. Durante anos fui observando esses produtos, usando, vendendo e vendo o que as pessoas gostavam. E eu tinha vontade de fazer uma bota Black Boots impermeável, uma bota para trekking, caminhada e principalmente para quem viaja e quer levar uma bota confortável que consiga enfrentar situações diferentes.

Fiquei bastante tempo pensando nisso até pegar uma Danner como referência.

E vou contar exatamente como aconteceu. Olhei aquela Danner, gostei muito da solução e pensei que poderíamos fazer alguma coisa naquela linha. Para alguns isso pode ser copiar. Eu digo que foi uma inspiração, porque a partir dali fomos escolhendo nossos materiais, nossa forma e aquilo que eu achava que funcionaria melhor para a nossa realidade.

A Walker acabou sendo fabricada pelo pessoal da Bradock, do Gilberto, e participei diretamente do desenvolvimento.

Ela é toda feita externamente em nobuck hidrofugado. Esse couro recebe durante seu processamento um tratamento para aumentar a resistência à água. É importante falar em resistência porque couro não vira plástico. Ele continua absorvendo umidade em determinadas condições e essa proteção também precisa de manutenção ao longo do tempo.

É por isso que na Walker não dependemos somente do couro para manter o pé seco. Por dentro existe uma membrana impermeável e respirável, além de um forro técnico macio.

A lógica é exatamente aquela evolução que aconteceu nas botas de trekking. O couro continua sendo importante, mas não precisa fazer todo o trabalho sozinho.

A Walker tem ainda uma entressola de EVA. Aquela parte mais clara que aparece entre o cabedal e a borracha não está ali apenas por desenho. Ela ajuda a diminuir bastante o peso e oferece amortecimento durante a caminhada. Embaixo fica o solado Vibram, produzido no Brasil sob especificações da marca, com um desenho que oferece um grip muito bom para terra, cascalho e situações de trekking.

Inclusive, durante o desenvolvimento eu cheguei a conhecer outro solado Vibram que poderia ter sido utilizado. Era um solado com uma proposta ligada ao uso de materiais reciclados, algo que achei interessante, mas quando peguei o solado achei duro demais para aquilo que queria da Walker. Acabei optando pelo conjunto que está nela hoje, porque queria uma bota confortável para caminhar.

A construção da Walker é colada, como acontece com grande parte das botas modernas desse tipo. Isso também ajuda na redução de peso e permite trabalhar com esse conjunto de EVA e borracha de uma maneira completamente diferente da construção daquela Garmont.

Tenho uma Walker minha que já usei bastante e a bota continua inteira. É possível inclusive ressolar uma Walker, desde que você tenha um bom profissional para fazer o serviço. Hoje o problema maior é conseguir encontrar o solado adequado para comprar, coisa que no Brasil nem sempre é fácil.

E tem uma curiosidade nessa história toda. A Walker é uma bota da qual eu gosto muito, mas comercialmente ela nunca funcionou para a Black Boots como eu imaginava.

Até hoje não sei exatamente por quê.

Quem tem costuma elogiar. É uma bota confortável, impermeável, leve, com couro bom, membrana e Vibram. Eu gosto dela principalmente para viajar. Você coloca no pé e pode caminhar bastante, pegar chuva, frio e enfrentar uma quantidade enorme de situações com uma única bota.

Mas talvez o consumidor que procura uma bota de trekking esteja acostumado a procurar Salomon, Merrell, Timberland e outras marcas que ficaram conhecidas especificamente por esse tipo de produto. Talvez ele não enxergue imediatamente a Black Boots dessa maneira. Pode ser também que nós mesmos não tenhamos conseguido comunicar direito a proposta da Walker.

Hoje os últimos pares estão no Garimpo 1961 e, pelo menos por enquanto, não pretendo voltar a produzi-la.

Mas colocar essa Walker ao lado da Garmont me fez pensar bastante sobre o que realmente mudou nesses anos todos.

Se você me perguntar qual das duas eu escolheria para caminhar seis horas hoje, eu escolheria a Walker sem pensar muito. É mais leve, mais confortável, tem amortecimento e você coloca no pé e sai caminhando. Não existe aquela dificuldade inicial de uma bota pesada de couro que precisa se adaptar ao pé.

Agora, se você me falar que vamos para uma montanha com neve, muito frio, pedras e uma condição realmente severa, provavelmente eu vou querer a Garmont.

Não porque ela seja simplesmente melhor.

É porque ela foi construída para aquilo. Existe uma quantidade de couro e de estrutura envolvendo seu pé que transmite uma proteção enorme. A mesma rigidez que me incomodaria numa caminhada normal pode ser exatamente aquilo que eu gostaria de ter em determinadas condições.

Por isso também não gosto muito de dizer que uma construção como a dessa Garmont ficou ultrapassada. Acho que mudou a necessidade e mudou a maneira de resolver o problema.

Não faria hoje uma bota exatamente igual a essa Garmont. Temos materiais e tecnologias que permitem fazer determinadas coisas de maneira mais confortável e mais leve, então não vejo sentido em ignorar tudo isso.

Mas tem muita coisa nessa bota que continua me inspirando.

Quando olho o couro, as ferragens, os passadores de cadarço, a palmilha de montagem, as costuras e a quantidade de material empregado, percebo que existe ali uma preocupação enorme com a qualidade dos componentes. Você aperta um daqueles ganchos de metal e sente que aquilo foi feito para trabalhar. Você olha para o couro e vê um material grosso tanto por fora quanto por dentro. Olha para o solado Vibram depois de todos esses anos e ele continua ali.

É isso que acho interessante recuperar das botas antigas.

Não precisamos recuperar necessariamente o peso ou a rigidez. Também não vejo vantagem nenhuma em voltar para uma época em que uma pessoa precisava sofrer semanas amaciando uma bota simplesmente porque não existia uma solução melhor.

Mas podemos olhar para essas botas e aprender com a qualidade dos materiais, com a preocupação com a durabilidade e com a maneira como foram construídas.

E talvez seja justamente por isso que essa Garmont continua aqui em casa.

Ela chegou através de um cliente que virou amigo, provavelmente já tinha passado por algumas mãos antes de chegar até mim e hoje fica no meu acervo. Não sei quem foi seu primeiro dono, não sei em quais montanhas ela andou e ainda não consegui descobrir exatamente em que ano saiu da fábrica em Montebelluna.

Mas consigo pegar essa bota, colocar ao lado de uma Walker e enxergar uma parte enorme da evolução das botas de caminhada.

Uma foi feita numa época em que couro, estrutura e peso resolviam quase tudo. Na outra você encontra couro também, mas encontra EVA, membrana, forro técnico e materiais trabalhando juntos para conseguir proteção com muito menos peso e muito mais conforto.

Para quem gosta de botas como eu gosto, é muito interessante perceber que uma coisa não precisa anular a outra. Dá para admirar aquela Garmont pelo que ela representou, usar tudo o que aprendemos depois dela e continuar procurando maneiras melhores de construir uma boa bota.

Talvez seja por isso também que eu continuo pegando uma bota, virando de cabeça para baixo, abrindo a língua e olhando por dentro.

Depois de tantos anos, ainda gosto de descobrir como fizeram.

Espero que voce tenha gostado desta história. 

Guilherme Horta

Fundador Black Boots - desde 1996