Fatliquoring: o segredo da maciez e flexibilidade do couro
Uma das coisas que eu acho mais interessantes de trabalhar há tantos anos com a Black Boots é que continuo aprendendo. E aprendo muito com os próprios clientes. A gente produz uma bota, vende diretamente para quem vai usar e depois esse cliente volta para contar o que aconteceu. Às vezes é um elogio, às vezes uma dúvida, às vezes uma bota que envelheceu maravilhosamente bem e, de vez em quando, aparece algum problema que me deixa curioso e me faz ir atrás de uma explicação.
Foi exatamente assim que cheguei a este assunto.
Eu estava escrevendo um texto para o blog sobre couro ressecado e rachado. Tudo começou com uma bota de um cliente que chegou até nós com o couro bastante comprometido. Conversei com o Walter, sapateiro que indicamos para nossos clientes e que já resolveu muita coisa para a Black Boots, comecei a pesquisar por que aquilo poderia acontecer e fui entrando cada vez mais na parte técnica da fabricação do couro.
Foi aí que apareceu uma palavra que, confesso, eu não conhecia: fatliquoring. E nem sei se estou pronunciando direito. “Fat” eu sei que é gordura. Quando vi o resto, “liquoring”, pensei: pronto, deve ser alguma coisa como uma gordura líquida, um “licor de gordura”, sei lá. Fui pesquisar e descobri que, em português, o processo é chamado de engraxe ou engraxamento do couro.
Só que esse nome também pode enganar um pouco quem não trabalha diretamente com a fabricação do couro, porque quando a gente ouve “engraxamento” imediatamente pensa em pegar uma lata de graxa e passar numa bota pronta. Não é nada disso. O fatliquoring acontece durante a fabricação do couro e tem uma função fundamental: introduzir e distribuir substâncias lubrificantes entre suas fibras para que o couro adquira a maciez, a flexibilidade e outras características necessárias para o uso.
E quando comecei a entender como esse processo funciona, várias coisas que observo há anos nas nossas botas começaram a fazer ainda mais sentido.
O couro que sai do curtimento ainda não está pronto
Eu sempre imaginei o curtimento como o grande processo que transforma uma pele animal em couro. E é, evidentemente, uma etapa fundamental. Mas uma coisa que aprendi nessa pesquisa é que, ao terminar o curtimento, o couro ainda não possui necessariamente lubrificação suficiente para simplesmente secar e continuar com aquela maciez que esperamos de um bom couro para calçados. Sem o tratamento adequado, ele poderia secar e se transformar num material muito mais duro e rígido.
É aí que entra o fatliquoring. O material técnico que encontrei explica que praticamente todos os couros leves precisam de uma maciez e flexibilidade maiores do que aquelas obtidas somente com o curtimento. Para conseguir isso, são introduzidos óleos no couro de maneira que suas fibras recebam uma lubrificação distribuída adequadamente.
E não estamos falando de encharcar uma pele em óleo. Pelo contrário. Segundo esse material, a quantidade de óleo pode representar aproximadamente 3% a 10% do peso do couro. O segredo não está simplesmente na quantidade. Está principalmente em como essa pequena quantidade é distribuída por uma estrutura fibrosa enorme.
Achei isso muito interessante.
Por dentro, o couro é muito diferente do que enxergamos por fora
Quando pegamos uma bota, enxergamos uma superfície. Vemos a cor, a textura, sentimos se o couro está macio ou duro, fosco ou brilhante. Só que internamente temos uma estrutura muito mais complexa, formada por fibras de colágeno entrelaçadas.
E essas fibras precisam trabalhar.
Pense no que acontece quando você dobra um pedaço de couro. Na parte externa da curva, as fibras precisam se esticar. Na parte interna, precisam se comprimir. Entre uma coisa e outra, elas precisam conseguir se movimentar e se acomodar sem que o material se rompa.
É aqui que aquela história de “amaciar o couro”, que falo há tantos anos para os clientes, começa a ganhar uma explicação muito mais interessante. Os agentes introduzidos durante o fatliquoring ajudam a lubrificar essa estrutura. Isso influencia diretamente propriedades como flexibilidade, resistência ao rasgamento, resistência à tração, comportamento nas costuras e até o conforto daquele couro quando transformado em um calçado.
E o mais interessante é que existe um equilíbrio. Lubrificação de menos é ruim, mas lubrificação demais também é.
O material técnico é bastante claro ao dizer que uma lubrificação insuficiente ou uma penetração inadequada pode produzir um couro duro e rígido, capaz de rachar durante o uso. Já o excesso pode deixar o couro mole demais, sem a estrutura e o comportamento desejados.
Então não é simplesmente “quanto mais óleo, melhor”. Isso vale durante a fabricação e é uma boa lição também para quem cuida de uma bota pronta. Mais produto não significa necessariamente mais cuidado.
Mas como colocar óleo dentro do couro?
Essa foi outra parte que achei muito curiosa. Óleo e água normalmente não se misturam. Se simplesmente jogássemos óleo sobre o couro, grande parte dele poderia ficar concentrada na superfície em vez de se distribuir adequadamente pelas fibras.
A solução é trabalhar com emulsões.
O óleo é disperso em partículas microscópicas dentro da água, formando aquela aparência esbranquiçada, quase leitosa, que encontramos em várias emulsões. Essa mistura precisa permanecer estável tempo suficiente para penetrar no couro. Depois, o processo é controlado para que os componentes lubrificantes sejam depositados nas fibras.
Ou seja, aquele óleo não está simplesmente “molhando” o couro. Existe tecnologia para fazê-lo chegar onde precisa chegar.
E é possível inclusive controlar o quanto essa emulsão penetra antes de depositar seus componentes. Dependendo do resultado desejado, a distribuição pode ser diferente nas camadas do couro, produzindo características diferentes de maciez, elasticidade e firmeza.
Quando comecei a ler isso, pensei imediatamente nas diferenças enormes que encontramos entre os couros que utilizamos nas nossas botas. Dois couros podem ter a mesma espessura e visualmente até parecer semelhantes, mas o comportamento na mão e principalmente no pé pode ser completamente diferente.
Não é mágica. É matéria-prima, química e processo.
E aquela história de óleo derivado de petróleo?
Aqui veio outra coisa interessante porque a pesquisa acabou corrigindo uma simplificação que eu mesmo fazia.
Eu costumava falar de determinados produtos à base de derivados de petróleo como se isso, por si só, significasse que seriam ruins para o couro. Tecnicamente não é assim.
Óleos minerais obtidos do petróleo também são utilizados na indústria do couro. São relativamente baratos, quimicamente estáveis, não são facilmente afetados por fungos e bactérias e podem proporcionar características de resistência à água. Portanto, seria errado simplesmente dizer que “petróleo estraga couro”.
Só que existem diferenças importantes. Segundo o material técnico que consultei, os óleos minerais podem ser mais difíceis de incorporar profundamente ao couro sem deixar uma superfície mais oleosa ou impermeável. Também apresentam uma ação de alimentação das fibras diferente de outros tipos de óleo e, sob determinadas condições de calor, podem migrar para a superfície, causando oleosidade ou alteração de aparência.
E aí começamos a entender por que não faz muito sentido escolher um produto para cuidar da bota simplesmente olhando um ingrediente isolado.
O que importa é a formulação, a finalidade daquele produto, o tipo de couro e a maneira como ele será utilizado.
Óleos e ceras naturais também fazem parte dessa história
A lista de materiais utilizados historicamente na tecnologia do couro é enorme. Aparecem gorduras animais, óleos vegetais, óleos de peixe, óleo de mamona, óleo de coco, azeite, lanolina e várias outras substâncias que podem ser modificadas e utilizadas de diferentes maneiras.
E aí encontrei dois nomes bastante familiares para nós da Black Boots: cera de carnaúba e cera de abelha.
São justamente as duas ceras que utilizamos na nossa Leather Wax.
Isso não significa que simplesmente pegar cera de abelha ou carnaúba e passar sobre qualquer couro seja equivalente ao fatliquoring. São coisas completamente diferentes. O fatliquoring é uma etapa industrial realizada durante a fabricação do couro, utilizando emulsões e processos desenvolvidos para distribuir agentes lubrificantes dentro de sua estrutura. Uma cera aplicada posteriormente numa bota pronta trabalha de outra maneira.
Mas achei interessante descobrir que esses materiais naturais fazem parte há muito tempo do universo da tecnologia do couro. E também ajuda a entender por que uma boa formulação para manutenção não precisa necessariamente transformar a superfície numa camada extremamente brilhante.
Nas nossas botas, gosto justamente de preservar o aspecto próprio de cada couro. Trabalhamos muito com couros cuja beleza está naquele visual mais natural, normalmente fosco ou semifosco, mostrando textura, variações de tonalidade e, com o passar do tempo, as marcas de uso. Quero cuidar desse couro preservando essas características, não transformá-lo num sapato social brilhante.
“Hidratar o couro” talvez não conte a história inteira
Essa pesquisa também me fez pensar numa expressão que todos nós usamos, inclusive eu: hidratar o couro.
Ela funciona muito bem na conversa e todo mundo entende o que queremos dizer. Mas tecnicamente a história é um pouco mais complexa. Não estamos simplesmente colocando “água” num couro seco. Estamos falando de manter uma estrutura fibrosa em condições adequadas de umidade, lubrificação e flexibilidade. Os óleos e agentes utilizados no fatliquoring ajudam justamente a permitir que as fibras se movimentem umas sobre as outras.
Talvez por isso eu goste tanto da palavra amaciante quando converso sobre manutenção de botas. Ela explica muito bem o resultado que procuro.
Quero um couro que continue macio e flexível. Quero que ele dobre milhares de vezes durante uma caminhada sem que suas fibras fiquem rígidas e comecem a romper. Quero que ele envelheça, ganhe marcas, mude de tonalidade e desenvolva sua pátina, mas continue mantendo as características que fazem do couro um material tão interessante.
E o que isso tem a ver com uma bota que já está no seu pé?
O fatliquoring acontece no curtume. Não vamos repetir esse processo em casa passando uma cera na bota.
Mas entendê-lo muda bastante nossa maneira de pensar sobre conservação. Primeiro porque mostra que a flexibilidade do couro depende de algo que acontece dentro de sua estrutura, e não simplesmente da aparência da superfície. Uma bota pode estar brilhando e isso não significa necessariamente que o couro esteja nas melhores condições.
Segundo porque mostra que equilíbrio importa. Se até durante a fabricação existe preocupação tanto com falta quanto com excesso de lubrificação, não faz sentido imaginar que uma bota será mais bem cuidada quanto mais produto colocarmos nela.
E terceiro porque explica por que sempre digo para observar o couro. Pegue a bota na mão, aperte, dobre um pouco e sinta. O couro está macio? Está flexível? Está começando a ficar seco e rígido? Mudou muito desde quando você comprou?
Às vezes essas informações dizem muito mais sobre o estado de uma bota do que simplesmente olhar se ela está brilhando.
Quanto mais eu trabalho com couro, mais descubro que ainda tenho para aprender
Talvez essa tenha sido a parte mais legal dessa história.
Estou há décadas trabalhando com botas. Já vi muito couro, acompanhei produção, conversei com fabricantes, curtumes, sapateiros e principalmente com milhares de clientes. Mesmo assim, estava escrevendo um artigo sobre uma bota ressecada que chegou até nós e encontrei uma palavra que eu nem conhecia.
Fatliquoring.
Ou “engraxe do couro”, se quisermos utilizar a expressão técnica em português.
E foi através de um problema apresentado por um cliente que fui estudar, encontrei o assunto e aprendi mais um pouco sobre o material com que trabalho há tantos anos.
Essa troca sempre fez parte da Black Boots. Como vendemos diretamente para quem usa nossas botas, recebemos o retorno do produto no mundo real. Sabemos onde marcou, onde gastou, onde molhou, o que envelheceu bem e também aquilo que eventualmente apresentou algum problema. Eu gosto de procurar entender o porquê. Às vezes descobrimos que foi manutenção, às vezes utilização, às vezes matéria-prima e às vezes encontramos alguma coisa que podemos melhorar na própria fabricação.
Para mim, esse retorno não é um incômodo. É informação. É assim que a gente aprende e é assim também que consegue fazer uma bota cada vez melhor.
E agora, quando eu pegar um pedaço de couro macio na mão, provavelmente vou lembrar que aquela maciez começou muito antes de ele virar uma Black Boots. Em algum momento dentro de um curtume, alguém precisou pensar até na maneira como uma pequena quantidade de óleo seria distribuída entre milhões de fibras de colágeno.
Eu só não prometo conseguir falar fatliquoring direito.
Valeu!!!
abs,
Guilherme Fundador Black Boots - desde 1996
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