Bota ou tênis: qual é melhor?
Eu sempre usei tênis.
Quando era moleque, usei Bamba, Conga e o que aparecia naquela época. Aos 12 anos comecei a jogar vôlei e fui atleta até os 18, 19 anos. Joguei pelo Minas, pelo Olímpico, treinava direto e praticamente vivia dentro de uma quadra. Cheguei a jogar basquete também, mas foi o vôlei que realmente me pegou.
Lembro dos Onitsuka Tiger que usava para jogar. Naquela época a gente queria um tênis leve no pé. Tênis, meia branca, short curto, camiseta sem manga e quadra. Era mais ou menos esse o uniforme da minha adolescência.
Só que, por volta dos 15 anos, apareceu um coturno no meio dessa história.
E eu lembro dele como se fosse hoje.
Era um coturno usado do Exército e, para falar a verdade, nem era muito bonito. Um pé parecia diferente do outro e o couro de um deles estava todo ressecado, meio craquelado. Eu passava graxa, passava cera, tentava melhorar aquilo, mas não tinha muito jeito.
Naquela época a gente conseguia esses coturnos com quem tinha servido ao Exército. Um amigo tinha um irmão que tinha servido, o cara não queria mais a bota, vendia barato e a gente comprava. Não tinha loja especializada, internet, nada disso. Estou falando de 1975, 76, por aí.
Roupa também era outra história. Ter uma Levi's ou uma Lee era para poucos. Depois apareceram outras marcas brasileiras, mas não existia essa quantidade absurda de roupa que existe hoje. Usava-se o que tinha.
E lá estava eu. Durante a semana, de tênis dentro da quadra. Quando ia sair com os amigos, ir a uma festa ou simplesmente dar um rolé, muitas vezes estava com aquele coturno no pé.
Não era uma questão de moda. Pelo menos eu não pensava nisso. A gente era moleque. Gostava do coturno porque era uma coisa bruta. Dava para chutar pedra na rua, andar para qualquer lado e pronto.
Pouco tempo depois veio uma bota que eu lembro ainda melhor.
Eu devia ter 16 ou 17 anos quando comprei uma Samello em uma sapataria na esquina da Rua dos Tupis com Rio de Janeiro, perto da Igreja São José, no centro de Belo Horizonte.
Essa já era outra história.
Era uma bota texana caramelo, de bico arredondado, cano médio para alto, toda lisa e forrada de couro. Linda. Fiquei muitos anos com aquela bota.
Aí já tinha jeans, cinto mais largo, fivela grande. A bota aparecia um pouco por baixo da calça, mas nunca gostei daquela coisa de colocar a calça para dentro e deixar o cano inteiro aparecendo. Para mim aquilo tinha muito mais a ver com rock and roll do que com cowboy.
Era época de Stones, Deep Purple e toda aquela turma. E a bota entrou de vez na minha vida.
Quando a bota deixou de ser apenas uma questão de gosto
Existe ainda outra razão para eu ter passado a usar cada vez mais botas.
Quando tinha uns 10 anos, caí em um vão de uma garagem em Brasília e quebrei o tornozelo esquerdo. Fiquei com a perna inteira engessada por um bom tempo.
Aquilo não me impediu de jogar vôlei. Treinei durante anos, joguei normalmente e fui levando a vida. Só que, com o passar do tempo, comecei a perceber que aquele tornozelo tinha ficado mais vulnerável. De vez em quando o pé virava.
Anos depois tive também problema no joelho esquerdo.
Até que um dia eu estava descendo a pé da Serra para a minha loja na Savassi, em Belo Horizonte. Devia dar uns três quilômetros. Eu estava numa época em que gostava de fazer esse trajeto andando.
Enfiei o pé em um buraco na rua e virei justamente o tornozelo esquerdo.
Quase não consegui chegar à loja. O pé inchou, doeu para danar e fui mancando o restante do caminho.
Ali pensei: chega.
A partir daquele momento comecei a usar bota praticamente para tudo. Moto, trabalho, viagem, dia a dia. Até para academia passei a procurar botas mais leves, de trekking, alguma coisa que me desse conforto sem deixar meu tornozelo tão exposto.
A bota, que já era uma paixão, passou também a me dar segurança.
Mas o mundo escolheu o tênis
Quando comecei a pensar neste texto, fui procurar alguns números porque tinha uma impressão de que hoje talvez 80% ou 90% das pessoas usassem tênis e uma parcela muito menor usasse botas.
Não encontrei nenhum dado sério que permita fazer essa divisão dessa maneira. Então não vou inventar estatística.
Mas encontrei números que ajudam a entender o tamanho dessa história.
Segundo o World Footwear Yearbook 2026, foram produzidos no mundo 24,6 bilhões de pares de calçados em 2025. A Ásia respondeu por 88,7% dessa produção. Só a China fabricou 13,7 bilhões de pares. O Brasil continua entre os dez maiores produtores mundiais.
Aqui no Brasil, segundo a Abicalçados, foram produzidos 847 milhões de pares em 2025. O consumo aparente brasileiro ficou em 786,7 milhões de pares. É calçado para caramba.
Não encontrei uma estatística mundial confiável separando simplesmente “tênis versus botas”, porque as classificações da indústria são muito mais complexas. Existem calçados esportivos, casuais, sociais, de segurança, botas, sandálias e uma infinidade de categorias que se misturam.
Mas basta sair na rua para perceber que o tênis se tornou um calçado de massa. Ele saiu há muito tempo da quadra e da academia e passou a ocupar praticamente todos os lugares.
E eu entendo perfeitamente o motivo.
Tênis é leve, confortável, fácil de calçar. Existem tecnologias fantásticas de amortecimento, estabilidade e materiais. Existe ainda uma cultura gigantesca em torno dos sneakers, com colecionadores, lançamentos, modelos históricos e toda uma ligação com esporte, música, skate, hip hop e moda.
Eu mesmo vivi bastante esse mercado.
Na Black Boots vendemos Converse para caramba. Chegamos a ser um dos grandes vendedores da marca em Minas Gerais. Também vendemos Nike, Adidas, Vans e várias outras marcas. Passou muito tênis bacana pela minha mão.
Só que nunca foi aquilo que me pegou.
A bota me diz alguma coisa
Talvez porque eu esteja ligado a esse mundo há tanto tempo, quando olho para uma bota eu vejo muito mais do que simplesmente um calçado.
Eu acho que bota tem mais personalidade.
É a minha opinião.
Uma work boot me diz alguma coisa sobre quem escolheu aquilo. Uma cowboy diz outra. Um coturno militar, uma motorcycle boot, uma Chelsea, uma moc toe, cada uma carrega uma história e comunica alguma coisa diferente.
Às vezes vejo um cara de jeans, camiseta e uma boa bota de couro e aquilo já me chama atenção. Dependendo da bota, começo até a imaginar o que aquele cara faz. Pode ser arquiteto, engenheiro, mecânico, motociclista, músico, sei lá.
O tênis também comunica, claro. Um tênis ligado ao hip hop diz uma coisa. Um tênis de corrida diz outra. Um modelo de trekking, outra. Existem pessoas que conhecem profundamente esse universo e conseguem olhar para um sneaker e enxergar coisas que eu provavelmente nunca enxergaria.
Só que esse não é o meu mundo.
Eu sei ler melhor uma bota.
E acho também que existe alguma coisa de maturidade nisso. Uma boa bota de couro tem presença, tem peso, tem uma coisa mais bruta. Talvez venha da própria história das botas, do trabalho, do campo, das motocicletas, dos militares.
Quando vejo um cara usando uma boa bota, tenho a impressão de que houve uma escolha ali.
E tem uma coisa que o couro faz muito bem: envelhecer
Tenho hoje uns 40 pares de botas que uso ou mantenho por perto.
Algumas são atuais porque eu preciso testar o que estamos fazendo. Sai uma construção nova, eu uso. Preciso produzir conteúdo de uma Moc Toe café, começo a usar uma Moc Toe café. Faz parte do meu trabalho.
Mas tenho também botas antigas que não abro mão.
Algumas são de construções que nem fazemos mais. Só que meu pé já está tão moldado dentro delas que seria uma bobagem me desfazer.
Tenho outras que quase não uso e guardo como se fossem obras de arte. E, para mim, são.
Essa é outra diferença que eu vejo entre uma boa bota de couro e grande parte dos tênis modernos.
O couro muda.
Ele marca, ganha vincos, muda um pouco de tonalidade, recebe hidratação, cera, graxa. A sola pode se desgastar e, dependendo da construção, ser substituída. A bota pode ser reformada e continuar na estrada.
Uma boa bota não precisa ficar feia porque ficou velha. Às vezes acontece justamente o contrário.
Ela fica mais sua.
E agora eu estou lançando um tênis
Talvez essa seja a parte mais engraçada dessa história toda.
Tenho 65 anos, trabalho com botas há 30, tenho uns 40 pares delas em casa e hoje meu único tênis é justamente um modelo que estamos desenvolvendo na Black Boots.
O Osaka GT.
Eu comecei a testá-lo e estou usando direto.
Para mim havia uma condição fundamental: estabilidade. Não adianta colocar no meu pé um tênis extremamente macio, com uma plataforma enorme e que deixa meu tornozelo dançando. Já virei o pé usando um tênis assim e sei que não funciona para mim.
O Osaka tem sola Vibram, uma camada de EVA, é leve, confortável e fácil de calçar, mas mantém uma estabilidade que me deixou seguro.
Daqui a alguns dias estou indo para Portugal.
Provavelmente vou embarcar usando o Osaka. Para ficar horas dentro de um avião, quero alguma coisa leve e confortável. Quero também aproveitar a viagem para fazer algumas imagens e, quem sabe, lançar o tênis além-mar.
Na mala devem ir uma Moc Toe e uma Dublin.
Se me obrigassem a escolher apenas dois pares para a viagem, provavelmente hoje levaria o Osaka e uma Dublin.
Mas existe uma diferença curiosa.
Se eu viajar levando apenas uma boa bota, sinto que me resolvo.
Posso andar durante o dia, trabalhar, viajar, pegar estrada e à noite sair para jantar. Meu estilo sempre foi casual e, dentro desse estilo, quando coloco uma boa bota me sinto um pouco mais bem vestido.
Só de tênis, eu provavelmente sentiria falta da bota.
Talvez seja simplesmente porque essa é a minha história.
Comecei de Bamba e Conga. Passei anos dentro de uma quadra de vôlei usando Onitsuka Tiger. Aos 15 apareceu aquele coturno velho e craquelado. Depois veio a Samello caramelo. Vieram dezenas e dezenas de outras botas, uma loja, a Black Boots e uma vida inteira trabalhando com calçados.
Cinquenta anos depois daquele primeiro coturno, estou novamente de tênis no pé.
E gostando.
Então volto à pergunta que deu origem a este texto:
Bota ou tênis: qual é melhor?
Não sei.
E acho que nem precisa ter resposta.
Eu sei qual dos dois faz mais parte da minha história. Mas isso não significa que tenha que fazer parte da sua.
E você, se tivesse que escolher um só, iria de bota ou de tênis?
Valeu!!!
abs,
Guilherme - socio fundador Black Boots - desde 1996
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